22 de mar de 2015

Desafios da pregação e do ensino da Bíblia

Teólogos e estudantes de Teologia participaram do 1º Seminário Pregação e Ensino, organizado pela fundação religiosa Exposição Bíblica, entre os dias 19 a 21 de março, na Igreja Batista Deus é Luz, na cidade de Águas Claras, em Brasília.

Os preletores foram o pastor Renato Vargens que palestrou sobre “O valor do ensino doutrinário”, o reverendo Augustus Nicodemus que enfocou o tema “O sermão e a precisão exegética” e o pastor Michel Augusto cuja apresentação foi em torno do “Problema da forma sem o conteúdo”. A parte musical ficou sob responsabilidade de Valter Júnior, do ministério de louvor da igreja e de Leonardo Gonçalves.

Alunos de Teologia da Faculdade Evangélica de Brasília 
com o pastor Augustus Nicodemus e os professores Denise Santana e Paulo Soares


Abrindo a noite de debates, o pastor Renato foi enfático. Disse que, para tristeza e vergonha do segmento evangélico, muitos pregadores são fracos e desprovidos de verdades e de boa teologia. Em seguida, organizou o discurso em torno de três perguntas principais: por que os sermões de hoje são ineficientes e não geram mudança na vida das pessoas? Quais as consequências de um púlpito fraco? Como resolver esse problema?

Para entender o motivo de as ministrações serem de baixa qualidade, o pastor Renato listou alguns pontos. Disse que muitos pastores abandonaram as Escrituras na hora de pregar, são preguiçosos e não preparam os sermões com aplicação e antecedência, copiam pregações prontas da internet, muitos não têm o hábito da leitura, praticam pragmatismo religioso, os púlpitos são fracos porque sacralizam a música, mistificam o evangelho e relativizam a Palavra de Deus. Há ainda o problema dos seminários teológicos falidos. “Abandonamos as Escrituras. Pregamos sobre temas variados, sincretizamos mensagens, muitos pastores sobem ao púlpito sem ter aberto a Bíblia para estudar o texto. Há dados de que mais de 50% dos pastores brasileiros nunca leram toda a Bíblia. Deveriam ser homens mais responsáveis. Eles expõem as sãs doutrinas sem conhecer a Palavra de Deus. Sem estudo, as mensagens são rasas e não levam a igreja a uma profunda experiência de transformação”, disse o pastor.

Um ponto muito crítico levantado pelo preletor foi sobre o pragmatismo religioso praticado nas igrejas que leva as pessoas a um evangelho de autoajuda. Prega-se o que vai dar certo e não o que é certo, o que está de acordo com os princípios bíblicos. O evangelho de autoajuda recai em uma mensagem de resposta rápida para o cliente. “As verdade não são pregadas, a doutrina não é ensinada. Muitos dizem que não se deve pregar as Escrituras porque é enfadonho. Jesus pregava as Escrituras e atraia multidões. Também sacralizamos a música. Parece que o louvor só funciona se der arrepios nas pessoas. Nunca cantamos tanto e isso não tem mudado nossas vidas. Colocamos a música em um patamar no qual não deveria estar”, disse o pastor Renato, enfatizando que o ensino bíblico deve vir em primeiro lugar.

Existe ainda a mistificação do Evangelho. As pessoas hoje proclamam, determinam, mas suas vidas não são mudadas. É o que Renato chama de “zoo teologia”: “a pessoas dizem que voam como águia, latem como cachorro e dizem que estão cheias do Espírito Santo. Não é o que eu creio, o que eu acho que vai fazer a diferença. É o que a palavra de Deus é”, completou.

As consequências de tantos problemas relativos ao ensino doutrinário são pregação desprovida de fundamentos bíblicos, pregação antropocêntrica, as pessoas estão deixando as igrejas (tornando-se desigrejadas) e também mistura-se cristianismo e sincretismo. Qual a solução? “Voltar às Escrituras”, defende o pastor. Pregar e cantar só as Escrituras e ensinar as doutrinas é o caminho para um evangelho crescente.

Não há um instituto de pesquisa que publique os dados com precisão, mas números informais apontam que existem 1 milhão e meio de desigrejados no Brasil atualmente. Esse é outro problema crescente para as igrejas. Renato divide essas pessoas em três grupos distintos: os semi desigrejados (que vão esporadicamente aos templos); os feridos na batalha (pessoas que deixaram a igreja e a fé porque foram marcados por estruturas despóticas e tornaram-se decepcionados com a igreja); e aqueles que são mesmo mau caráter (que carregam o nome de Jesus Cristo, mas estão interessados em construir seus próprios reinos e levam prejuízo de todo tipo para os segmento evangélico inclusive criando doutrinas heréticas).

A segunda noite de palestra foi marcada pelo discurso de Augustus Nicodemus. Ao ensinar sobre como pregar expositivamente, o reverendo disse que um pregador deve, ao escolher um texto bíblico para o sermão, fazer uma boa exegese que significa entender o texto à luz da Bíblia, descobrir qual o sentido que Deus queria ensinar com o texto, o que significou para o público da época na qual foi escrito e como esse sentido se aplica aos membros da igreja hoje. Citando o escritor John Macarthur, Augustus afirmou: “estou convencido de que pregar expositivamente é a melhor das pregações porque é ordem de Deus, torna as Escrituras conhecidas do povo que fica familiarizado com o texto, deixa clara a autoridade da Bíblia e não do pregador, confronta o relativismo e a imoralidade da nossa cultura com uma mensagem autoritativa acerca das verdades absolutas.”

Ainda embasando o discurso em autores, como Don Carson, o reverendo Nicodemus, que tem 35 anos de experiência na área de pregação expositiva, foi enfático ao afirmar que a tarefa do pregador é ensinar a Bíblia e não pregar experiências pessoais. Ele referia-se a muitos pastores que sobem aos púlpitos e somente leem um texto, mas não o explicam. Passam o tempo do sermão contando testemunhos, comentando sobre assuntos diversos publicados em revista e na TV, mas nada comentam e ensinam sobre o texto que acabaram de ler. Não analisam o texto escolhido para o sermão à luz do contexto histórico para explicar para os ouvintes quando, como, onde, para quem e com qual finalidade aquele texto foi escrito e, depois dessa exegese, mostrar como é possível aprender princípios bíblicos para serem vividos hoje.

Enfim, uma aula sobre como preparar sermão expositivo. Esse foi o foco da noite. “Para pregarmos expositivamente temos que crer, sem duvidar, que a Bíblia é nossa regra de fé e prática, que foi inspirada por Deus, que nela está inserida a autoridade divina, que tem coesão interna apesar de ter sido escrita durante vários anos, em épocas, por autores e culturas diferentes. A Bíblia é uma coleção de livros, mas não se contradiz, tem uma única mensagem, é coesa. Sobretudo, para pregarmos, temos que crer que a Bíblia tem relevância para os tempos pós-modernos”, disse o reverendo.


Depoimentos 

"Gostei do seminário porque entendi que tenho que ensinar a Palavra com clareza. Que seja viva, eficaz e verdadeira. Não se pode ensiná-la de qualquer jeito."
Maurício Pessoa da Silva Santos, marcador e cortador de vidro, estudante de Teologia 

"Gostei muito do seminário. Os temas são relevantes para a igreja."
Gerson Alves, pastor e estudante de Teologia

"Eu gostei muito. Eles trataram com muita seriedade do assunto, mostrando a urgência de um retorno à leitura cuidadosa da Palavra de Deus. Penso que, para nós estudantes de Teologia, enriqueceu nosso conhecimento. Para aqueles que se comprometeram com Deus, entendendo que isso requer não só vida no altar, mas conhecimento profundo da Palavra. Ainda que não seja uma tarefa fácil, não vejo outro caminho para as mudanças tão necessárias no cristianismo que não sejam por meio do verdadeiro conhecimento e da prática das Escrituras Sagradas."
Maria de Fátima Rocha, estudante de Teologia

“A serenidade e a riqueza de conhecimento do palestrante envolveu todos, pois o mesmo passa segurança naquilo que fala. Também comentou sobre a realidade que é a necessidade de se pregar o sermão expositivo e o despreparo dos pregadores de hoje. E as orientações que foi passado para nos preparar melhor, para apregoar o Evangelho simples, mas genuinamente cristocêntrico.”
Joviano Soares, assistente administrativo e estudante de Teologia

"Excelente o seminário. Acredito que muitas pessoas foram impactadas pelas verdades necessárias ao aprimoramento de cada pregador, líder, dirigente, professor que é o ensinar a verdade. Aprendi que o estudo da Palavra e falar a verdade sobre sua aplicação é a melhor forma de combatermos as mentiras e heresias que estão sendo contadas por falsos mestres e falsas doutrinas. "
Paulo Sá, bombeiro militar e estudante de Teologia



“Gostei do seminário por vários motivos. Senti-me honrado por tamanha oportunidade em nossa cidade pelos organizadores trazerem teólogos expressivos como o reverendo Augustus Nicodemus. Os preletores puderam, de forma sistematizada, falar dos métodos de ensino e pregação que são empregados, explanando os equívocos na forma de pregar e, assim, permitindo inferências alheias à hermenêutica e à exegese bíblicas. Puderam destacar a importância de seminários desse gabarito para contribuir com a necessidade de uma igreja cristã que busca ser saudável e vivenciar um evangelho pleno da graça, sem modismos e visões humanas. Senti-me feliz em poder conhecer pessoas que só ouvimos e, por vezes, fazemos referencias ao nome. Eles defendem um estudo salutar e aplicável a toda comunidade cristã. Os preletores nos deram combustível edificante e nos fizeram enxergar muito mais do que vemos: que é possível vivermos de uma palavra viva e eficaz que traz luz e discernimento para todas as igrejas que se permitem a isso.”
Fernando Rabelo, policial militar e estudante de Teologia

Texto: Denise Santana, jornalista, teóloga e professora

23/3/2015