1 de jul de 2015

Que sexo frágil que nada

Uma convidou a outra. Elas se conectaram nas redes sociais para divulgar a aula. Depois se encontraram para aprender a arte e a técnica do krav magá, um método israelense de defesa pessoal.
Instrutores Vitor, Vanessa e Pierro 

A noite foi só para elas. Cerca de 50 mulheres se reuniram na Terceira Igreja Batista de Brasília, campus Asa Norte, em 30 de junho, para aprender a se defender em casos de violência. Assaltos e estupros são os casos mais comuns de problemas que a mulherada sofre nas ruas.

Depois das devidas apresentações, a pastora e pedagoga Vilma Lira fez uma oração. A aula veio em seguida. As dicas de autodefesa foram ministradas por Vanessa Ribeiro, instrutora chefe de krav magá no Distrito Federal, membro da Federação Sul Americana de Krav Magá. Ela contou com o apoio dos instrutores Pierro Pedercini e Vitor Sad.

A instrutora acredita que, tempos atrás, ficava em segundo plano uma mulher pensar em se defender. Poucas se preparavam para isso.  “Mas hoje a defesa pessoal é de primeira necessidade. Está na hora de a mulher tomar para si a responsabilidade de sua própria segurança”, disse Vanessa que luta krav magá há 18 anos e dá aula há 15. Ela começou a treinar incentivada pelo irmão que é instrutor também. Depois disso, mudou-se do Rio de Janeiro para Brasília para se dedicar à arte. Vanessa conta que nunca sentiu resistência por ser mulher, lutar e dar aula, principalmente em uma área onde a maioria dos alunos é do sexo masculino. Pelo contrário. Admite que eles pensam que ela é competente. Se chegou onde chegou, na liderança da luta, é porque realiza bem o que se propõe a trabalhar. Se a mulher é sexo frágil como se diz popularmente? Vanessa tem uma resposta rápida para essa frase: “sexo frágil é o escambal. Não quero ser mais uma vítima”, argumenta.  As alunas dão risada da frase da instrutora e aprendem que, pelas técnicas, podem se proteger atacando pontos fracos de um homem agressor como olhos, pescoço e genitália. Não é por meio da força física que uma mulher se defende de uma agressão. É lógico que, fisicamente, os homens são mais fortes. Mas com técnica apropriada é possível atacar pontos sensíveis e garantir a segurança. Controle emocional também é fundamental para saber como agir na hora da emergência.

O instrutor Pierre, bacharel em Direito, concorda com a professora. Ele é instrutor de krav magá há oito anos. Entende que as aulas são importantíssimas para as mulheres terem maiores noções de como ter um comportamento defensivo.  “A mulher tem que entender que não precisa ser vítima. Nos cursos elas aprendem que podem se defender em situações de perigo. Elas têm a escolha de se capacitar para se defender”, comentou Pierre.
Alunas aprendendo sobre técnicas de defesa pessoal de krav magá

A iniciativa da igreja faz parte de um projeto maior, o Corre Bela. A psicóloga Andrea Suhet Moreira é uma das voluntárias que trabalha no projeto voltado para servir às mulheres, de todas as idades, independente da religião. Todas são bem-vindas. “Essa aula de krav magá é importante para nós aprendermos a nos cuidar. Nosso país vive uma triste realidade de violência”, disse Andrea.

Fernanda Mattos, bacharel em Direito, é outra voluntária do Corre Bela. Além de incentivar a atividade física, acredita que o projeto é uma oportunidade de convidar mulheres não evangélicas para conhecer a igreja, proporcionar novas amizades, ouvi-las e ter um momento de comunhão. “Nós interagimos e mostramos o amor de Jesus dando um café, um bate papo, um abraço. Nós queremos nos importar com as mulheres. Na nossa sociedade existe a ideia de que a mulher não tem valor. Mas nós podemos nos juntar, cuidar umas das outras. Podemos cuidar das que têm problemas enormes e das que não têm”, disse Fernanda.

A aula de krav magá foi uma iniciativa aprovadíssima pelas participantes. A engenheira ambiental Eveline Moraes, 27 anos, é católica.  Disse que aprendeu noções básicas de como se proteger. Destacou que, para isso, fazer um trabalho emocional é fundamental. “Temos que entender que não queremos ser vítima”, disse.

Yeda Moraes, professora, 29 anos, também é católica e foi à Terceira Igreja pela primeira vez por convite de uma amiga. “Entendi que não preciso ser refém da violência”, comentou. Também da mesma ideia compartilhou Alessandra Feliz, bancária, 42 anos. Ela é católica e ficou encantada pelo projeto envolver mulheres de idades tão diferentes em busca de um objetivo. “Aqui temos uma boa ideia, um bom motivo para estarmos juntas. Minha amiga me convidou pelo Facebook. Eu participei e gostei. Mas minha amiga acabou nem vindo à aula”, disse Alessandra.
Instrutores: Vanessa, Pierro e Vitor

Karina Cham, bióloga, esportista, é membro da Terceira Igreja Batista. Participou da iniciativa e disse que foi animada, divertida e teve um aprendizado útil. “Temos que nos conscientizar que precisamos estar atentas para a nossa própria segurança”, disse.

Fernanda Mattos explica que, além do projeto Corre Bela que oferece atividade física gratuita como caminhada e corrida, as voluntárias da igreja também estão organizadas e iniciaram atividades junto às mulheres em situação de prostituição, também com dependentes químicas via projeto Casa Rosa (na Cristolândia, na Ceilândia). Elas atuam ainda com assistência às detentas da Penitenciária Feminina do DF, popularmente conhecida como Colmeia. Na prisão, as mulheres têm o dia da beleza com cuidados com os cabelos e maquiagem. Recebem ainda mensagens bíblicas e são ouvidas por meio de um trabalho de aconselhamento. Na última vez que as voluntárias visitaram a prisão, receberam doações de cabelos das detentas que foram doados para fazer peruca no projeto social do Hospital de Base de Brasília. A ideia é trabalhar com a mulherada nas áreas física, emocional e espiritual.

Fique por dentro
Para saber mais sobre krav magá, acesse: www.kravmaga.com.br

Para mais informações sobre projeto Corre Bela, acesse: www.facebook.com/correbela

Para denunciar violência contra a mulher, acesse:
http://www.mulher.df.gov.br/canais-de-atendimento.html


Texto: Denise Santana, jornalista, teóloga e professora