22 de abr de 2016

Os donos do mundo e os perseguidos: o Império Romano e a igreja cristã primitiva


*Por: Denise Santana, teóloga, jornalista e professora

O Cristianismo é uma religião fundada por volta do ano 30, século I, em Jerusalém, no Dia de Pentecostes. Era a época em que o Império Romano dominava o mundo conhecido. É nesse cenário que surge a igreja primitiva que foi perseguida como está registrado no livro de Atos 8:1-3: “naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém” (SBB, 2003, p. 1362)1

Mas o cenário pesquisado para este texto vai além, englobando as informações históricas dos séculos II e III. Será analisada a vida dos cristãos primitivos (apostólicos) e pós-apostólicos, fazendo um recorte de tempo e espaço. Para isso, a narrativa será delimitada nos trezentos primeiros anos da era cristã.

É preciso entender em que contexto atuou os romanos para depois esclarecer os motivos que levaram à perseguição aos cristãos. Isso será feito na segunda parte deste texto. É preciso ainda entender o que é História porque é a partir desse parâmetro que se construirá a história da primeira igreja. Earle Cairns define a história da igreja como “o relato interpretado da origem, progresso e impacto do cristianismo sobre a sociedade humana, baseado em dados organizados, reunidos pelo método científico a partir de fontes arqueológicas, documentais ou vivas. Ela é a história interpretada e organizada da redenção da humanidade e da terra” (CAIRNS, 2008, p. 16) 2.

A definição do termo história tem significados diferentes. Quatro no total de acordo com Cairns. A primeira definição de história é acontecimento, um evento real que ocorreu no tempo e no espaço como resultado da ação humana. Essa história é única e não se repete pela segunda vez. Mas sempre existe a margem de semelhanças. Ou seja, podem acontecer fatos parecidos, semelhantes, mas nunca exatamente iguais a outros fatos. O segundo significado para a palavra história é informação sobre um acontecimento. Essa informação pode estar em forma de documento. Um exemplo da história como informação é a bula papal. O terceiro significado da palavra história é investigação ou pesquisa para descobrir dados sobre o passado. Aqui cabe dizer que a História é uma ciência que tem processo de pesquisa próprio, que estuda o homem e sua ação no tempo e no espaço, analisando eventos que aconteceram no passado. É o olhar singular sobre o ontem, para entender o hoje e formar o amanhã. É dentro desse terceiro significado da palavra que se encaixa a etimologia. História vem do substantivo grego historia que procede do verbo grego historeo. Significa, originalmente, aprender pela pesquisa ou investigação. O quarto significado de história é interpretação. É a reconstrução do passado à luz dos dados, dos pressupostos do historiador e da opinião de seu tempo e ainda da liberdade da vontade humana como explica o autor citado (CAIRNS, 2008, p. 15). 3.

Definido o terno, é hora de perguntar sobre por que estudar história. Qual a importância de se conhecer o passado? A história da igreja tem algum valor? A história da igreja tem valor singular. Quais são esses valores? Cairns enumera várias vantagens em se estudar o passado. Afirma que conhecer a história da igreja é saber que esta faz uma correlação entre o passado e o presente, ou seja, entre o Evangelho que foi pregado ontem e o que é pregado hoje. Mostra como o Espírito Santo de Deus atuou ao longo dos séculos por meio da igreja. A história ajuda ainda a entender o presente e formar a igreja do futuro. Como saber o motivo pelo qual existem vários grupos de cristãos na atualidade como protestantes, católicos romanos e católicos ortodoxos, por exemplo? Como saber a diferença entre eles? Olhando para o passado, pois a história explica isso. As práticas litúrgicas também são facilmente entendidas se o olhar voltar-se para o ontem. Os problemas contemporâneos da igreja são mais facilmente entendidos se olhar o passado, pois existem paralelos semelhantes na história. São semelhantes e não iguais. Ainda é importante entender o passado porque a história da igreja é um guia para evitar que se cometa, no presente, erros que já foram cometidos anteriormente. Inclusive na Bíblia, em 1 Coríntios 10:6-11, está escrito que os ventos do passado devem ajudar a evitar o mal e imitar o bem (SBB, 2003, p. 1446) 4. Uma força motivadora. Essa é outra boa ideia para se estudar o passado dos cristãos. Por meio da fé das pessoas dos homens e mulheres do passado os crentes do presente são incentivados a permanecer firmes na graça reveladora de Deus. E nesse quesito os textos bíblicos trazem inúmeros exemplos de pessoas que erraram e acertaram na vida, mas que, sobretudo, contaram com a força de Deus para vencer. Davi, Moisés, José, Rute, Ester são alguns nomes. Também é por meio do passado que a pessoa pode conhecer sua árvore genealógica espiritual para exercer sua cidadania. “É tão necessário para o cristão conhecer sua genealogia espiritual quanto o é para o cidadão estudar a história de seu país para exercer a sua cidadania de forma consciente” (CAIRNS, 2008, p. 18) 5. Também é uma motivação para os que sofrem e são perseguidos atualmente por serem seguidores de Jesus. Por meio de conhecer a história da igreja antiga os cristãos perseguidos de hoje entendem que não serão destruídos apesar das dificuldades. Isso porque no primeiro século os cristãos também foram perseguidos e mortos. Apesar disso, a igreja não acabou, pois foi fundamentada na pedra angular que é Cristo, de acordo com a interpretação protestante (CAIRNS, 2008, p. 18) 5.

A prática da religião no Império Romano.
O estudo do apogeu e do declínio do poder romano no mundo do século I teve vertentes de todas as áreas: política, econômica, religiosa e social. Mas o foco deste trabalho faz um recorte específico sobre o aspecto religioso.

A religião permeava a vida. Toda a vida social passava pelo religioso, necessariamente. Larry H. Hurtado, professor e historiador do Novo Testamento, diz que a religião estava presente no nascimento, na morte, no casamento, na participação social, no militarismo, na música e na diversão. Tanto no âmbito público como no privado. “Na era romana, a religião não era uma questão de foro íntimo apenas, mas também um aspecto visivelmente público da vida” (HURTADO, 2011, p. 26) 6.

Não faltaram situações para a religião mostrar sua força. Hurtado diz que publicamente, na vida política, a religiosidade marcava presença quando aconteciam as cerimônias em homenagem aos deuses de uma cidade. As associações são outro bom exemplo. Todas tinham suas padroeiras. Na hora das refeições, e em todos os jantares formais, agradecia-se à divindade. Muitos jantares eram servidos dentro dos templos dos deuses. Os militares prezavam pelos seus padroeiros e prestavam cultos a eles. Além da vida pública, na rotina das casas, na intimidade dos lares, também a religiosidade estava presente, pois existiam os deuses da cozinha que eram reverenciados enquanto se preparava os alimentos. A maioria das pessoas do período romano aprovava e participava das manifestações religiosas. Mas existiam também os céticos, chamados de os literati, que eram pessoas da elite cultural que não nutriam confiança na religiosidade romana. Esse grupo eram minoria na sociedade (HURTADO, 2011, p. 23) 7. O paganismo romano tinha um quadro grande de deuses e um número grande de seguidores. Aliás, a diversidade de deuses merece destaque. Cada povo tinha os seus deuses. Dois exemplos para ilustrar: deusa Atena, da cidade de Atenas; e deusa Ártemis, da cidade de Éfeso (HURTADO, 2011, p. 27) 8.

Mesmo com o panteão de deuses para reverenciar, era comum cada povo misturar outros deuses à adoração. Nada impedia que deuses de outros grupos fossem igualmente reverenciados. Praticar a religião de outro grupo não significava ser infiel à própria. Era um politeísmo sem medida. No livro de Atos, por exemplo, há o registro por parte do apóstolo Paulo sobre os gentios que frequentavam as sinagogas da Diáspora. “Os inúmeros convites e oportunidades que as cidades romanas ofereciam a quem desejasse participar de suas incontáveis atividades religiosas aparecem nas instruções detalhadas de Paulo em 1 Coríntios 8-10, em que o apóstolo responde a dúvidas sobre a participação dos cristãos no culto a outros deuses (10.1-22), se devem ou não aceitar o convite de seus conhecidos e familiares não cristãos em outras circunstâncias” (HURTADO, 2011, p. 29) 9. O apóstolo disse que os cristãos não deveriam participar de cultos pagãos, mas deveriam ter boas relações com os vizinhos.

O imperador reconhecia como válida toda forma de religiosidade de todos os povos que conquistava. Essa prática fazia parte da política romana. Os governadores que cuidavam das cidades-estados para o imperador frequentavam os templos pagãos e ofereciam sacrifícios aos deuses locais. O comércio era grande entre os povos conquistados pelo Império, a circulação de mercadorias e de ideias também era livre. Pobres ou ricos, livres ou escravos, todos tinham liberdade para seguir uma religião desde que cultuassem ao imperador também. Os ricos tinham o costume de construir templos para seus deuses. “Assim, por exemplo, imigrantes egípcios erguiam santuários a Ísis, enquanto os judeus da Diáspora construíam sinagogas” (HURTADO, 2011, p. 28) 10.

Como a religião foi importante para unificar o Império, não poderiam faltar os templos. Estavam por toda parte, eram grandes, em locais centrais das cidades. Mas também existiam templos fora das grandes cidades com arquitetura bem trabalhada. E existiam templos para todos os deuses. Nos templos se faziam os sacrifícios, embora os deuses pudessem ser invocados em qualquer local, sempre que tivesse necessidade. Onde construir um templo? Há casos em que a divindade aparecia para os fiéis (teofania). Esses lugares eram geralmente escolhidos para a construção do santuário. Há ainda o registro de que muitas vezes cidades pediam permissão ao imperador para construir um templo em adoração a ele ou para colocar uma imagem sua junto à imagem da deusa Roma. Dessa maneira, o templo era considerado consagrado tanto para o imperador quanto para a deusa Roma. Além de locais religiosos, os templos também eram espaços para reuniões sociais e culturais. Neles eram construídos museus, zoológicos, jardins, galerias de arte e havia apresentações de concertos (HURTADO, 2011, p. 35) 11. Eram locais de grande movimentação de pessoas. Muitos templos tinham salões para serem alugados para festas. Era a vida social e religiosa andando juntos na era romana.

A prática pagã de construir um templo e colocar dentro imagem do deus era uma característica da época. Uma prática pagã de ter um objeto material, visível para o culto. Essa maneira romana de cultuar é diferente da maneira cristã de adoração. Os cristãos primitivos não usavam imagem de escultura de de Deus. Aliás, “os cristãos primitivos herdaram da tradição judaica a proibição do culto às imagens” (HURTADO, 2011, p. 37) 12. Os filósofos não desvalorizavam as imagens. Pelo contrário. Diziam que eram “objetos que facilitavam a devoção aos deuses, constituindo um foco tangível e localizado de adoração” (HURTADO, 2011, p. 37) 13. Era a fé que necessitava de ser materializada por meio de um objeto para ser vivida. Embora as imagens não fossem objeto de culto para os judeus e cristãos, há registro de imagens em sinagogas. Personagens bíblicos e símbolos foram encontrados em escavações arqueologias no sítio Dura Europos. Há arte cristã com representação de Jesus que data do final do II século ou início do III. Mas Hurtado afirma que essas imagens encontradas não tinham o mesmo peso de objeto de adoração como as dos templos pagãos (HURTADO, 2011, p. 38) 14.

Diante de tamanha fé, como eram as cerimônias? “Muitos deuses tinham cultos periódicos (geralmente anuais), com procissões nas ruas, coros acompanhados de vários músicos, sacerdotes e devotos trajando vestimentas especiais das divindades homenageadas pela procissão, bem como encenações de rituais. Toda essa festa atraia multidões que vinham observar as atividades e participar delas” (HURTADO, 2011, p. 25) 15. Além dos deuses com grandes cultos anuais existiam aqueles com cultos diários. A deusa Ísis é um exemplo Seu templo era aberto pela manhã e fechado à noite.

A partir do governo do imperador Julio César, tanto no Oriente quanto no Ocidente, a deusa Roma mereceu destaque. Era uma deusa da Roma imperial e o imperador foi associado à sua imagem. Essa deusa recebeu muitas honras porque foi instituído o culto ao imperador (veja sobre esse culto na parte sobre a perseguição à igreja primitiva). Assim como a deusa Roma ficou popular e foi adorada por romanos e povos dominados pelo imperador, a deusa Ìsis também saiu da esfera de adoração do Egito e sua imagem se espalhou por todo Império, sendo reverenciada por povos diversos sob diferentes nomes. O politeísmo ajudou a misturar os deuses e fazer com que algumas divindades locais se tornassem imperiais. Apenas judeus e cristãos, dentro do Império, se recusavam a adorar e adotar novos deuses porque ambas as religiões praticavam o monoteísmo. Hurtado afirma que as expressões monoteístas “não serviram de base para qualquer mudança significativa na prática religiosa e jamais desafiaram as tradições e as devoções politeístas da época” (HURTADO, 2011, p. 33) 16.

Diversidade. Essa é uma palavra que expressa a prática religiosa do povo do Império. Muitos deuses, muitos templos, múltiplas formas de viver o sagrado. E muitos rituais praticados. Haviam sacrifícios oferecidos às divindades. Pagãos e inclusive judeus sacrificavam. Era uma oferta, um presente aos deuses. Tinha conotação positiva e não negativa. Sacrificar não significava perda, mas era um júbilo, uma alegria. Somente com o passar do tempo é que a palavra sacrifício ganhou a conotação negativa de perda sofrida por algo ou alguém. Por que se sacrificava? Para agradecer uma bênção. O que se sacrificava? Animais. “Para a maior parte da população dos tempos romanos, uma das poucas oportunidades para comer carne era durante os eventos em que os ricos faziam sacrifícios em quantidade suficiente para um grande número de participantes” (HURTADO, 2011, p. 39) 17. Parte do animal sacrificado era oferecida ao deus, isto é, ao templo e aos sacerdotes. O autor lembra que era comum vender o excedente da oferta para os mascates que revendiam nos mercados públicos. Um comércio em torno do sacrifício de animais. “Isso deixava inquietos alguns crentes de Corinto, que ficavam em dúvida se deveriam comprar e comer a carne à venda no mercado, porque era possível que tivesse sido consagrada a um deus pagão. A orientação de Paulo em 1 Coríntios 10.25-26 de que podiam comê-la em sã consciência foi dada para tranquilizá-los”. (HURTADO, 2011, p. 40) 18. Também era normal o sacrifício vir acompanhado de uma refeição partilhada pelos devotos. Todos os grupos religiosos tinham as suas refeições sagradas onde se comia e bebia exageradamente. Não era praticado entre os cristãos o ritual de oferecer sacrifício de animal a Deus. Também não tinham templo nem imagem. Tinham uma vida religiosa diferente dos demais povos. Além dos sacrifícios, Hurtado diz que existiam os rituais de iniciação pagãos onde as cerimônias eram realizadas à noite, com tochas, roupas especiais por parte dos sacerdotes, música, incenso, declamação de frases de efeito, som alto, e ficando os iniciados despedidos e depois eram vestidos. Mas também havia outros grupos religiosos pagãos que se reuniam em casas, em cerimônias pequenas e não tão sofisticadas como as públicas.

As provas históricas sobre a existência de Jesus
Há um debate entre os teólogos estudiosos do Novo Testamento que questionam se Jesus fundou ou não uma nova religião: o Cristianismo. Bruce Shelley entende que sim. Ele pergunta se Jesus teve algo a ver com a formação da igreja cristã. “Uma leitura imparcial de Mateus, Marcos, Lucas e João revela os planos de Jesus a respeito de um grupo de seguidores que desse continuidade ao seu trabalho. Durante dois anos, ele trabalhou com um grupo de discípulos fiéis, transmitindo-lhes ensinamentos sobre a vida no que chamava ‘o reino de Deus’, e os apresentou as ‘novas promessas’, que os manteve juntos no amor e no perdão. (...) De alguma forma, esse foi o nascimento do movimento de Jesus. E pelo menos nesse sentido Jesus ‘fundou’ a igreja” (SHELLEY, 2004, p. 4) 19.

Outro teólogo, Earle C. Cairns, entende que não. Jesus foi o fundamento e não o fundador do cristianismo. Isso significa dizer, de acordo com Cairns, que foram os apóstolos os fundadores da nova religião que inicialmente se chamou “O Caminho”. Somente depois foi que a comunidade de Jerusalém começou a denominar o grupo de convertidos como igreja (ekklesia) que quer dizer uma reunião de pessoas de Deus. Paulo pregou para os gentios e Pedro para os judeus. Ambos apóstolos, e ainda os demais, levaram o evangelho baseado na mensagem que Jesus pregou sobre o Reino de Deus (CAIRNS, 2008, p. 48) 20.

Existe algum registro histórico sobre a existência de Jesus e da igreja primitiva além do texto da Bíblia? Os historiadores, teólogos e arqueólogos dizem que sim. Há provas históricas de que Jesus não foi uma fábula, uma invenção das pessoas do século I. Quais são essas provas? Earle Cairns aponta, pelo menos, três fatos históricos. O primeiro é o testemunho pagão (romano), depois vem o testemunho judaico e, em terceiro lugar, o testemunho cristão fora da Bíblia (CAIRNS, 2008, p. 39) 21.

Antes de explicar as provas históricas da existência de Jesus é importante dizer que esses testemunhos vêm de romanos e judeus estudados e politizados que hostilizavam os cristãos. Isso é significativo porque são relatos históricos oriundos de fontes que não são a Bíblia e que não vêm de pessoas simpáticas ao Evangelho. Somente o terceiro testemunho é que foram relatos de pessoas que eram convertidas ao cristianismo. Os dois primeiros vêm daqueles que faziam oposição aos cristãos.

O testemunho pagão vem de Tácito, historiador romano antigo. Nos textos que ele escreveu há a citação e a ligação do nome dos cristãos a “Christus”. Por volta do ano 112 ele redigiu uma carta ao imperador Trajano pedindo orientação de como tratar os cristãos. Outro texto é do livro de Suetônio, que recebeu o título Vida dos doze Césares: vida de Claudius. No livro, Suetônio menciona sobre a história dos judeus que foram expulsos de Roma por causa de distúrbios a respeito de Cristo. Luciano é outro escritor que, em 170, produziu uma sátira sobre os cristãos. Sátira é uma construção poética, cheia de ironias e que serve para se opor aos costumes, ideias ou instituições de uma época. Na obra, Luciano cita que Cristo foi crucificado por ter criado uma seita e ridicularizou os cristãos por adorarem a Jesus.

Quanto ao segundo ponto, que é o testemunho judaico, as fontes históricas para afirmar que Jesus Cristo realmente existiu vem do historiador judeu Flávio Josefo que citou o nome de Cristo em seu livro ao falar sobre Tiago, o irmão de Jesus. Também comentou que Pilatos condenou Cristo à morte de cruz. O valor histórico desse texto é enorme uma vez que Josefo não era um judeu simpático ao cristianismo. E além do círculo dos adeptos da fé cristã, ou seja, no meio acadêmico secular, atualmente os relatos de Josefo são considerados fontes originais e válidas. Ou seja, a ciência está afirmando a existência histórica de Jesus, o Nazareno.

O terceiro e último ponto que comprova que Jesus realmente existiu vem dos próprios cristãos, mas cujos depoimentos não estão narrados na Bíblia. O autor Montague R. James escreveu o livro The Apocryphal New Testament. Na obra, há citação de símbolos cristãos encontrados nas catacumbas como a pomba, o peixe e a âncora. Há ainda a citação sobre a igreja e o calendário cristão.

A questão das fontes históricas, como as acima mencionadas, também é objeto de estudo da argentina doutora em História Gabriela Alejandra Peña. Em livro dedicado à história da comunidade cristã, Peña diz que os historiadores, em busca de conhecer o passado, analisam testemunhos, indícios de atividades humanas realizadas para ter as fontes fundamentais de informação. Com o propósito de conhecer a história, pode-se usar fontes escritas, orais e materiais ou arqueológicas. “As escritas são documentos oficiais como os privados”. Exemplos de fontes escritas são atas judiciais, documentos oficiais, cartas, diários íntimos, testemunhos. “As fontes orais foram constituídas de tradições que foram passando de geração para geração a respeito de diferentes aspectos da vida da comunidade cristã (...) pelos testemunhos ou relatos de algumas pessoas. Em parte também a liturgia é uma fonte histórica oral”. E as materiais ou arqueológicas “são os objetos antigos que informam sobre alguns aspectos do passado: objetos litúrgicos, ornamentos, móveis, etc”. Exemplos de objetos são estátuas, placas, vitrais e fontes áudio visual (como fotografias, vídeos e áudios) também são incluídas nesse grupo (PEÑA, 2014, p. 21) 22.

O teólogo católico Jean Comby também comenta sobre a importância da fonte histórica e diz que se conhecem as “perseguições através de fontes variadas, por narrativas de historiadores não cristãos – tais como Tácito ou Plínio -, por atas de julgamentos, as quais se dá o nome de atas de mártires. Testemunhas oculares nos deixaram relatos diretos do acontecimento, como os cristãos de Lião em 177. Todas essas fontes são dignas de confiança. Entretanto, após a paz da igreja (313), o prestígio dos mártires foi tal que muitas comunidades passaram a invocar por patronos mártires incertos. Surgem então narrativas mais ou menos lendárias” (COMBY, 2009, p. 42) 23.

O crescimento da igreja cristã primitiva
Aprofundando na história da igreja e conhecendo os primeiros séculos que embalaram a fé de milhares de pessoas, é possível afirmar que, depois dos três anos de ministério de Jesus na Terra, Sua morte e ressurreição, e depois do Dia de Pentecostes, a igreja primitiva ganhou força e cresceu rapidamente.

Os primeiros cristãos vieram do judaísmo e se converteram ao cristianismo. A Bíblia narra o rápido crescimento após o derramamento do Espírito Santo na festa judaica de Pentecostes. Atos 5:14 diz que “a multidão dos que criam no Senhor, tanto homens como mulheres, crescia cada vez mais” (SBB, 2003, p. 1356) 24.
Franklin Ferreira dá os números do crescimento do cristianismo. Diz que no início do século III eram 60 milhões de pessoas no Império Romano. Desse total, menos de 1% da população era cristã. Antes do fim desse século, a margem subiu para 10% de convertidos. Já no século IV, os cristãos somavam 56,5% da população romana. (FERREIRA, 2013, p. 29) 25. O austríaco doutor em Teologia e Filosofia Josef Lenzenweger também cita a expressividade crescente da comunidade cristã. Comenta que, por volta dos anos 200, “o cristianismo já não vivia num gueto, tornara-se uma sólida união de fiéis, cuja existência a sociedade não podia ignorar, ainda mais porque ameaçava implodir a estrutura do Império Romano. (...) Os pagãos observavam o espantoso sucesso da missão cristã e a inabalável confiança dos fieis. (...) Havia uma consternação por causa da ameaça às bases religiosas e políticas do Estado romano” (LENZENWEGER, 2013, p. 31) 26.

Era natural que os primeiros cristãos fossem judeus. Inicialmente, ainda frequentavam a sinagoga e o templo. Mesmo depois de convertidos. Somente com o tempo deixaram de praticar totalmente a lei judaica e passaram à liturgia apenas cristã. Depois dos judeus moradores da Palestina, outro grupo de judeus – chamados helenistas, também se converteram. Quem eram os helenistas? Eram judeus que moravam em outras cidades do Império Romano e voltaram para Jerusalém. Moravam no Egito, Ásia Menor e Europa. Eram pessoas que conheciam outras culturas, falavam grego e liam a Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento). Então, os helenistas eram misturados culturalmente com outros povos e isso ajudou que fossem mais abertos às novas experiências culturais e religiosas do que os judeus palestinos. Logo depois veio ainda a conversão dos gentios, povo estrangeiro que conheceu o Evangelho por meio das viagens missionárias do apóstolo Paulo.

Foi primeiro nas áreas urbanas (e somente depois na rural) que o cristianismo mais cresceu. A posição social dos convertidos era mista. Tinham pessoas de todas as classes sociais e idades. Ricos e pobres, homens e mulheres. Mas sabe-se que grande parte das pessoas era pobre. O ambiente religioso do período é outro ponto que merece atenção. Os cristãos confessaram a fé em Jesus Cristo em um mundo politeísta. Excesso de pluralismo religioso e sincretismo eram comum à vida das pessoas. Inclusive esse costume de praticar várias religiões ao mesmo tempo nunca foi combatida pelo Império Romano. Desde que se prestasse culto ao imperador, qualquer pessoa poderia seguir qualquer divindade.

Por que o crescimento da igreja foi rápido? Ferreira diz que foi porque os cristãos tinham “elevado padrão ético”. Eram contra o infanticídio, o aborto, o divórcio, o incesto, a infidelidade conjugal e a poligamia. Também ajudavam os mais necessitados criando uma espécie de assistência social. Essas ideias e práticas conquistaram as pessoas que se convertiam em grande número. O comportamento e a crença dos cristãos eram um modelo diferenciado se comparado ao mundo pagão da época. Cristãos praticavam culto a um único Deus, com reverência à ortodoxia, rituais próprios (batismo e ceia). Ou seja, uma distinção total dos padrões religiosos daquele século. Em outras palavras, os cristãos eram diferentes. Em contrapartida, o paganismo tinha uma enorme quantidade de deuses para se reverenciar, muitos cultos e era desprovido de dogmas.

Bruce Shelley também explica a expansão do Evangelho. Sem descartar que o crescimento se deu pela vontade divina, Shelley destaca ainda quatro motivos humanos que culminaram no fortalecimento da igreja primitiva. Ele acredita que Deus também age pelas mãos das pessoas.

O primeiro motivo que levou à rápida expansão do número de convertidos foi a convicção de que o Messias havia chegado e redimido Seu povo.

Em segundo lugar, o coração da sociedade carecia de conforto. Os cristãos pregavam o amor de Deus diante das dificuldades naturais da vida e se ajudavam mutuamente. Esse discurso de fé e de graça conquistou os corações das pessoas que viviam em um mundo onde o pensamento estoico ensinava que a felicidade poderia ser alcançada diante da supressão do desejo de tudo que não podia obter ou alcançar. Os estoicos não pregavam amor e graça. E nem pregavam ou praticavam a ajuda ao outro. O estoicismo, filosofia forte na época, era caracterizada por uma aceitação de que todas as coisas que acontecessem na vida, fossem boas ou não, era destino. Nada podiam fazer para mudar o quadro. Era para extirpar as paixões e aceitar o destino traçado. Assim o homem sábio alcançaria a felicidade. A situação trágica do homem era determinada pelo destino. Os cristãos, por sua vez, praticavam o auxílio mútuo em amor. Por isso ganharam adeptos. Pregavam e viviam um modelo de vida diferente do pensamento estoico.

Em terceiro lugar, Shelley destaque que foi mesmo a prática do amor fraternal que levou outras pessoas a se converter. Crentes cuidavam dos pobres, dos presos, auxiliavam as viúvas e os órfãos. Faziam o sepultamento dos irmãos mortos. Inclusive fala-se que as igrejas de Roma e de Cartago compraram cemitérios para enterrar os cristãos no século II. Esses gestos faziam com que os cristãos fossem vistos como pessoas que praticavam o amor de Deus. Eram gestos de misericórdia diante de um mundo violento.

Em quarto lugar a expansão da igreja se deu por causa da morte de vários irmãos. Pessoas se converteram baseadas na história dos mártires, pois o testemunho falava alto. Muitos pagãos se converteram quando testemunharam a condenação e morte de cristãos (SHELLEY, 2004, p. 41) 27.

Gregos, romanos e judeus contribuíram para o crescimento dos cristãos. No geral, fatores como a existência de uma só cultura, um só idioma, uma localização estratégica (a Palestina) e um único governo foi um campo propício para a expansão. Pierrard informa que, depois da morte de Pedro e de Paulo, não surgiu nenhum nome de grande expressão. Os discípulos destes deram continuidade às pregações. “A boa nova foi transmitida de boca em boca por mercadores, transportadores, escravos libertos, judeus helenizados e gentios convertidos que passaram a seguir Cristo. A missão cristã se beneficiou de um contexto histórico e geográfico privilegiado. Uma estreita rede de relacionamentos humanos, facilitada pela segurança das estradas e pela atividade dos portos, permitia que os homens e as ideias se locomovessem e se espalhassem rapidamente. No caso do cristianismo, as numerosas comunidades judias da Diáspora e depois as comunidades paulinas serviram naturalmente de fios de transmissão para a evangelização. Não por acaso os principais centros do cristianismo nascentes foram Antioquia, encruzilhada de caravanas, Éfeso, o grande porto da Ásia, Tessalônica, a porta aberta para a Macedônia, Corinto, em contato com o Egeu e o Adriático, e Roma, o coração do Império. (...) A Pax Romana favoreceu, no interior do Império, os intercâmbios necessários. Roma forneceu à igreja cristã seus quadros jurisdicionais: a cidade, a província, mais tarde a diocese. Ademais, sabe-se que o terreno espiritual (...) estava pronto para receber a semente cristã. Paulo, em sua pregação, se inspirou no vocabulário e na ideologia helenística” (PIERRARD, 2014, p. 25) 28.

A igreja crescia e sofria perseguição. O cristianismo teve problemas de duas ordens no seu início: problemas internos com as heresias e externos oriundos da perseguição romana. Na verdade, os judeus foram os primeiros perseguidores dos cristãos. Cairns dividiu a perseguição em duas. A primeira perseguição se deu por parte dos próprios judeus na cidade de Jerusalém. A segunda, considerada por parte da política, foi no ano de 64 d.C. quando Nero perseguiu a igreja e colocou a culpa nos cristãos pelo incêndio em Roma. Paulo e Pedro morreram nesse período. Depois disso, outra perseguição aconteceu em 95 d.C. Era governo de Domiciano. Os judeus se recusaram a pagar imposto para sustentar o templo de Júpiter Capitolino (CAIRNS, 2008, p. 77) 29. O imposto deveria ser pago para a manutenção do templo. É nessa época que João foi exilado em Patmos e escreve o livro do Apocalipse. Quem era o deus romano Júpiter? Era a principal divindade dos romanos. Era identificado com Zeus grego. Filho de Saturno e Cibele, pai de Marte, Vênus, Minerva. Júpiter era avô dos deuses Rômulo e Remo, fundadores de Roma de acordo com a mitologia. Era um deus do dia, dos raios e do trovão.

Depois da morte de Estevão, o primeiro mártir cristão, outras mortes foram anunciadas nos textos bíblicos como a de Pedro e Paulo. Bruce Shelley comenta sobre a perseguição, mas diz que derramar sangue, ou seja, as mortes, não eram frequentes. “Tais derramamentos de sangue não eram comuns nos dois primeiros séculos. Por longos períodos, os cristãos foram deixados em paz. Mas (...) a perseguição estava sempre sobre suas cabeças bastava uma informação maliciosa, um alvoroço popular, um governador determinado em fazer cumprir a lei, e a tempestade desabava” (SHELLEY, 2004, p.47) 30. O que Shelley quer dizer e também é ideia endossada pelo teólogo católico Jean Comby é que os cristãos não foram perseguidos seguidamente, de maneira contínua, sem interrupção, durante os três primeiros séculos desta era, nem fizeram cultos nas catacumbas durante três séculos seguidos. É verdade que eles se refugiaram nos túmulos, mas não durante tanto tempo seguido. Aliás, as catacumbas somente foram adquiridas pelos cristãos no século III, de acordo com Comby (COMBY, 2009, p. 41) 31. Mas Bruce Shelley diz que os cemitérios foram comprados no século II pelas igrejas de Roma e de Cartago (SHELLEY, 2004, p. 41) 32. Afirmando que é necessário dar mais clareza à ideia de perseguição, Comby diz que na antiguidade esta assumiu formas variadas. Nero praticou uma perseguição local, segundo o autor, limitado à cidade de Roma. Dioclesiano praticou uma perseguição que se estendeu a todo Império Romano, sendo considerado um imperador cruel e sanguinário (COMBY, 2009, p. 43) 31. De qualquer maneira, independente da perseguição ser ou não contínua, dos cemitérios terem sido comprados no século II ou III, o que se sabe é que a tortura e morte dos cristãos foi uma realidade.

Thomas Kaufmann também explica sobre a situação legal e o problema das perseguições. Afirma que nos séculos II e III a insegurança quanto a possíveis perseguições e mortes era o maior problema dos cristãos. Eles esperavam, a qualquer momento, que pudessem ser punidos por causa da fé que professavam. “Até meados do século III dependia da decisão de cada governador perseguir ou não os cristãos por causa da sua profissão de fé. Uma vez que até a reforma imperial do início do século IV os imensos territórios das províncias em geral eram administrados sem muita burocracia, por um pequeno quadro de funcionários, e como as comunidades citadinas gozavam de um grande grau de responsabilidade própria e os governadores trocavam de posto em curtos intervalos de tempo, estes só acolhiam denúncias contra cristãos quando a paz interna da província estivesse correndo riscos ou quando uma catástrofe natural parecesse exigir culpados” (KAUFMANN, 2012, p. 57) 32. O que acontecia, ainda de acordo com Kaufmann, eram ações isoladas de pessoas que praticavam violência contra cristãos. O autor cita o exemplo de uma violência no ano de 248. O bispo alexandrino Dionísio escreveu uma carta ao bispo Fábio de Antioquia, narrando os fatos. Pessoas da cidade, incentivadas por sacerdotes pagãos, mataram cristãos e saquearam suas casas. Mas ele classifica essas ações como exceções, pois havia interesse na paz.

Além da Bíblia, os livros de História também narram mortes sofridas por pessoas que seguiam o evangelho de Jesus Cristo. Policarpio morreu queimado porque não negou ser cristão. Ele era bispo de Esmirna, no oeste da Ásia Menor. O que levou a essas mortes foi a perseguição que assolou a Palestina. Outro exemplo de morte foi de Tiago, filho de Zebedeu, em 41 d.C., que foi morto por ordem de Herodes Agripa I, rei da Palestina (SHELLEY, 2004, p. 25) 33. Pedro (dependurado de cabeça para baixo em uma cruz) e Paulo (decapitado) também foram capturados e mortos por ordem de Nero, na cidade de Roma. Foi no ano de 64 que os historiadores contam que Nero incendiou a cidade de Roma. Como a população poderia se voltar contra ele, colocou a culpa do incêndio nos cristãos. Foi do romano Tácito, considerado um dos maiores historiadores da antiguidade - também orador e político, que vieram as informações de que Nero foi uma pedra no sapato dos cristãos. João foi parar na ilha de Patmos depois de escapar da morte ao ser lançado em um caldeirão de óleo fervendo. Na verdade, a tradição cristã afirma que todos os apóstolos morreram de forma violenta. Marcos foi arrastado nas ruas de Alexandria, Egito. Mateus teve morte por espada, na Etiópia. Lucas foi enforcado na Grécia. Tiago foi decapitado em Jerusalém. Tiago, o Menor, foi espancado até a morte. Filipe foi enforcado na Frígia, Anatólia. André morreu pregado em uma cruz, em Pátras, na Grécia. Bartolomeu foi esfolado vivo em Albanópolis. Matias foi decapitado em Jerusalém. Barnabé morreu apedrejado, na cidade de Salônica, na Grécia (FERREIRA, 2013, p. 36) 34.

Também há o registro histórico de uma carta que Plínio (governador da Bitínia, norte da Ásia Menor, advogado, orador e político) escreveu para imperador Trajano sobre os cristãos. Plínio questiona se os cristãos devem ser punidos somente porque afirmam ser cristãos ou porque cometeram algum crime. Ele mandou executar os que se diziam cristãos e não negaram a fé quando foram interrogados. Outros diziam ser cristãos, mas como eram cidadãos romanos, foram enviados a Roma. Plínio cita na carta outras pessoas que negaram a fé e blasfemaram contra Jesus quando questionados pelas autoridades, venerando a imagem de Trajano (COMBY, 2009, p. 43) 35. O imperador Trajano responde à carta afirmando que não se poderia criar uma regra geral que tenha uma forma fixa. Que o governador Plínio deveria condenar aqueles que se diziam cristãos (COMBY, 2009, p. 45) 36. Também existe o registro da morte de outras pessoas que se tornaram mártires Um deles foi o apologista Justino que morreu em Roma. O outro foi o bispo Policarpo, que morreu em Esmirna. Ambos mortos sob o reinado do imperador Marco Aurélio (COMBY, 2009, p. 45) 37.

Poucas mulheres são citadas como mártires da fé. Uma prova de que o mundo religioso cristão, desde sua origem, é dominado pelos homens. As mulheres sempre participaram ativamente da vida da igreja cristã, mas nos textos escritos (tanto bíblicos como extrabíblicos) elas são pouco citadas. O retrato de uma época histórica onde se valorizava e vivia o patriarcado. Mas a teologia católica comenta sobre uma mulher chamada Felicidade que estava grávida de oito meses e foi presa em Cartago, no ano de 203. A lei proibia que se matasse mulheres grávidas. A escrava Felicidade morreu depois que deu à luz uma menina (COMBY, 2009, p. 45) 38.

E por falar sobre o apologista Justino no parágrafo logo acima, é preciso perguntar: o que foi um apologista? Qual a diferença entre os pais apostólicos, os apologistas e os polemistas? Os pais escreveram somente para os cristãos. Os apologistas escreveram ou se dirigiram em diálogo para os líderes do Estado romano afirmando que estes não tinham motivo para serem perseguidos. Ou seja, foram os defensores dos cristãos. No século II os apologistas fizeram justificação racional do cristianismo para as autoridades romanas. Escreviam para combater as falsas acusações que recaíam sobre os cristãos como ateísmo, canibalismo, incesto e preguiça (ver essas explicações na parte sobre as causas da perseguição). Queriam provar que eram pecado o judaísmo, o paganismo e o culto ao Estado romano. Defendiam o cristianismo afirmando que os cristãos mereciam tolerância civil e deveriam ser protegidos pelo Estado romano uma vez que as falsas acusações contra eles não poderiam ser comprovadas. Escreviam como filósofos e não como teólogos dizendo que cristianismo era uma religião e uma filosofia mais antiga do que o pensamento grego. Diziam que o Pentateuco, por exemplo, era mais antigo do que as filosofias gregas. Que as ideias da filosofia grega foram retiradas do cristianismo e do judaísmo. E de cultura grega os apologistas entendiam bem, pois foram educados na nessa filosofia. Eles achavam, inclusive, que a filosofia grega poderia ser um meio de levar as pessoas a aceitar Jesus Cristo. Os apologistas dividiam-se em dois grupos: os orientais (tendo como exemplos Aristides, Justino Martir, Taciano, Atenágoras e Teófilo de Antioquia) e os ocidentais (cujos nomes foram Tertuliano e Minúcio Felix).

Já os polemistas foram pessoas que enfrentaram os movimentos heréticos, os defensores da fé, os que criaram doutrinas cristãs para explicar a fé para os novos convertidos e para combater as heresias que negavam o Evangelho. Atuaram principalmente nos séculos II e III. Existiam falsos ensinos sendo pregados por parte de pessoas que foram consideradas hereges pela igreja. Então, os polemistas tentaram responder ao desafio dos falsos ensinos dos hereges. Condenaram os ensinos errados, condenaram as pessoas que ensinavam à população erradamente e defenderam os textos bíblicos. Os historiadores e teólogos citam vários polemistas. Os exemplos foram Ireneu, Clemente de Alexandria, Orígenes, Tertuliano e Cipriano.

As causas da perseguição
A perseguição teve vários motivos: político, religioso, social, econômico. Enumerando os motivos políticos, Earle Cairns cita que a igreja primitiva sofreu pouco enquanto era vista como parte do judaísmo, que era religião lícita (religio licita). Quando se diferenciou do judaísmo, foi entendida como sociedade secreta, sofrendo perseguição dos romanos. Então se tornou religião ilegal, pois ameaçava a segurança do Estado (CAIRNS, 2008, p. 75) 39. Se os cristãos tivessem que escolher, eram leais a Cristo e não a César. Essa era a regra de fé dos primeiros cristãos. Era exigida lealdade moral e espiritual das pessoas que aceitavam a Jesus. A lealdade deveria ser a Jesus e nunca a César. Para Roma, toda religião poderia ser tolerada desde que contribuísse para a estabilidade do Estado. E não que o ameaçasse. Os cristãos foram vistos como ameaça por não serem leais ao imperador. Foram considerados desleais ao Estado. O castigo para os desleais era o sofrimento e a morte.

Quanto aos motivos religiosos que levaram à perseguição dos primeiros crentes, há a acusação de ateísmo e imoralidade praticada. Os cristãos foram acusados de serem ateus e de praticar atos de incesto e canibalismo. Explicando a falsa acusação de ateísmo, havia o costume de se praticar um culto baseado em simbologia e com um ritual que usava objetos. A fé pagã usava imagens de escultura, altares, ídolos, sacerdotes, cânticos e ritos que poderiam ser vistos pelas demais pessoas. Esse tipo de culto era característico das várias religiões praticadas dentro do Império. Era chamado de religião externa. Os cristãos não faziam culto dessa maneira. Praticavam uma fé que é chamada de “espiritual e interna”. Ou seja, não se apegavam a nenhuma imagem ou peça que externasse a oração. Os cristãos apenas oravam de pé, de olhos fechados e não se dirigiam a uma imagem material específica, nenhum objeto visível. Por isso foram acusados de praticarem o ateísmo (CAIRNS, 2008, p. 75) 40.

E por que eram acusados de serem imorais? A acusação de incesto foi por causa da expressão “beijo da paz” ou “beijo santo” e por causa da “festa do amor”. Os pagãos levantaram a falsa acusação de que os cristãos faziam sexo e orgias durante o culto.
Quanto à acusação falsa de canibalismo, deu-se pela interpretação equivocada da santa ceia. O culto era fechado e somente convertidos participavam. Diferentemente de hoje, pessoas de outras religiões e até mesmo cristãos que ainda não haviam se batizado não participavam da ceia. Ferreira afirma que era a prática da “disciplina do segredo” (disciplina arcani). A adoração não era aberta a todos. Os atos litúrgicos eram restritos aos já iniciados na fé (FERREIRA, 2013, p. 30) 41. Os ritos litúrgicos permaneciam em segredo entre os cristãos batizados. Os não batizados não poderiam saber desses atos. Somente depois de batizado a pessoa frequentava o momento da ceia. Se os próprios cristãos não batizados eram privados de participar e conhecer a ceia, por exemplo, imagina se pessoas de outras religiões poderiam saber o que se passava durante a reunião. Jamais. Por desconhecer como era essa prática, e por causa do entendimento equivocado da expressão “comer e beber”, os cristãos foram acusados de canibalismo, de comer e beber sangue de criança sacrificado ao seu Deus (CAIRNS, 2008, p. 75) 42. Na verdade, a expressão “comer e beber” era somente uma referência ao corpo de sangue de Jesus.

Outro ponto que causou problema foi a expressão “beijo da paz” que foi entendida como conduta imoral. Esse cumprimento com o beijo da paz parou de ser realizado pelos cristãos por causa da interpretação equivocada que causava entre as pessoas que desconheciam a prática. Nunca é demais lembrar que os cultos eram fechados e somente os fiéis da religião participavam. Os cristãos foram acusados de fazer sexo no culto por causa da festa do amor e do beijo santo.

É preciso ressaltar a discordância dos cristãos em praticar culto ao imperador. Foi por meio da religião que o Império Romano conseguiu ter unidade. O culto ao imperador era a maneira de buscar essa unidade. A religião da deusa Roma uniria todos os países do Império. Lenzenweger explica que “o culto dos deuses tinha relação direta com e bem estar do Estado. Esse culto era visto como indispensável para que a sociedade tivesse um futuro feliz no Império e para o bem comum” (LENZENWEGER, 2013, p. 31) 43. Esse foi o ponto de maior problema para os cristãos que sempre eram convocados a estar perante as autoridades para se explicar. Eles declaravam que – ao contrário do que os pagãos diziam, eram fiéis ao Estado e ao imperador. Mas não eram militantes do Estado e nem acreditavam que o poder supremo estava nas mãos do imperador. Deus tinha o poder supremo na crença cristã e eles eram seguidores de Cristo. Os romanos queriam manter o poder a todo custo e desacreditavam da palavra dos cristãos. A opinião das autoridades romanas sobre os cristãos já não era muito favorável. E a opinião pública também não. Cristãos eram vistos como “corpo estranho dentro da sociedade” (LENZENWEGER, 2013, p. 31) 43. Enquanto era vista apenas como um grupo marginal e pequeno, os cristãos não foram incomodados. Recebiam atenção local. Mas quando as comunidades cresceram, aumentou a preocupação e o olhar das autoridades romanas.

O Estado romano somente tolerava a religião que contribuísse para estabilidade de sua própria política. Os romanos entendiam que os cristãos eram uma ameaça porque tinham lealdade moral e espiritual a Cristo. E como a igreja crescia rapidamente, entendiam que os cristãos estavam fundando um estado dentro do Estado. Isso foi considerado que os cristãos eram desleais. Quais as práticas cristãs eram consideradas deslealdade ao Estado romano? Os cristãos se recusavam a oferecer incenso nos altares no culto ao imperador. Quem sacrificasse nesses altares poderia praticar uma segunda religião sem sofrer interferência das autoridades romanas. Os cristãos realizavam a maioria das reuniões à noite e em segredo. Os romanos achavam que cristãos estavam tramando conspiração contra segurança do Estado.

Como era o culto ao imperador? Uma vez por ano todos os súditos do Império Romano tinha que ir ao templo prestar culto onde existia a deusa Roma que foi identificada como representação do imperador. Era obrigatório dizer que César era senhor, queimar incenso e depois recebia um certificado chamado Libellus para comprovar que havia prestado o culto. Ou seja, que era leal ao imperador. Isso permitia que seguisse a religião que quisesse sem ser perseguido pelo Império. Dizer que César era senhor é algo inadmissível para os cristãos, pois praticavam monoteísmo. Para a igreja primitiva, somente Jesus era Senhor. A recusa em admitir que César era um deus gerou perseguição e acusação de que eram desleais. O culto ao imperador assumiu lugar central no Império. Por isso se diz que foi a religião que promoveu a unidade de tantos povos de tão diferentes culturas. O teólogo católico Comby afirma que até o século III o culto imperial não era obrigatório para os moradores do Império (COMBY, 2009, p. 45) 44. Era praticado, mas não obrigatório. Depois dessa data é que tornou-se obrigatório adorar ao imperador. A gênesis do culto ao imperador está baseada na lei romana. A vida seguia esse curso: os romanos tomavam o controle político e o governo de uma nação. Em outras palavras, a conquistava. A imparcialidade de justiça romana era implantada e os cidadãos passavam a ser “protegidos” pelo Império. Se é que se pode dizer que povo dominado é protegido. Talvez a palavra explorado seja mais correta. Mas o certo é que Roma mandava dar proteção aos súditos, garantia estradas para livre trânsito, sem ladrões, nada de piratas roubando nos mares. Isso ficou conhecido como paz romana (Pax Romana). Diante de nações inseguras, diante de pessoas dominadas por governos tiranos, a sociedade viu-se agradecida a Roma pela nova ordem social que proporcionava. Desse espírito de gratidão foi somente um passo para que o espírito de Roma se tornasse a deusa Roma. Shelley conta que já no século II a.C., na Ásia Menor, se espalhavam templos à deusa Roma. Então, conta-se que essa deusa encarnou o seu espírito no imperador. Ele corporificava Roma. A deusa habitava na Terra no corpo de César. No Império foi por meio da religião que se unificou povos, culturas, ideologias, tradições, línguas e crenças tão distintas. A religião comum foi possível mediante o culto a César que era a pedra angular da política imperial. “Vê-se que o culto a César era basicamente um teste de lealdade política, que permitia saber se um homem era ou não um bom cidadão. Se alguém se recusasse a participar da cerimônia de reconhecimento de César, era automaticamente rotulado de traidor e revolucionário. A exaltação do imperador, portanto, criou um problema para os cristãos. Eles não deixavam de orar pelo imperador em suas reuniões, mas não oravam para ele em particular ou em público (SHELLEY, 2004, p. 50) 45. A diferença de prática religiosa entre cristãos e não cristãos está nas palavras “pelo” e “para”. Os cristãos não se recusaram a orar pelo imperador. Mas jamais aceitaram orar e pedir bênçãos para César. Diante da recusa dos cristãos, sobrou ao Império cumprir a tradição de causar dor e morte a quem o desobedecesse. Para os romanos os cristãos eram rebeldes. Para os cristãos os romanos representavam a sentença de morte. Antes morrer do que negar a Cristo ou seguir outro deus.

Além de rejeição de prestar culto ao imperador, os cristãos também rejeitavam outros deuses pagãos. Romanos e gregos tinham um deus para cada área da vida. Era comum prestar culto e pedir bênção para a deidade da colheita, da vida, da morte, da chuva, dos vulcões, do vento, do casamento. Para cada festa popular e mesmo durante as refeições privadas dentro de casa, o pagão orava agradecendo um deus específico. Esses inúmeros deuses nada significavam para os cristãos que eram vistos como isolados e desajustados sociais. Os cristãos não tinham um panteão com uma infinidade de deuses. Serviam a um único Deus. Eram monoteístas. A rejeição aos deuses pagãos era vista pelos romanos e gregos como “inimigos da raça humana”. Shelley diz que cristãos não participavam das festas sociais. Eram considerados isolados. As comemorações pagãs aconteciam nos templos após a realização de sacrifício. Depois, comia-se uma refeição, um jantar, em reverência a algum deus. Impossível um cristão participar de uma festa desse cunho, pois consideravam que era oferecida a ídolos. Torna-se um descortês ao recusar o convite para a festa (SHELLEY, 2004, p. 44) 46. Defendendo a pureza da fé, cristãos optaram pelo afastamento social. Escolheram não ir às festas, aos templos, aos teatros e lugares de recreação pagãs. Então foram vistos como antipáticos. A classe alta levava vida escandalosa e reprovava a pureza dos cristãos. Os pagãos criam que os seguidores de Jesus eram um perigo para a sociedade e os consideravam pessoas que odiavam a humanidade e que poderiam incitar as massas à revolta. Além dessa festa religiosa, os cristãos também rejeitavam participar de combates de gladiadores onde escravos e prisioneiros de guerra eram obrigados e lutar até a morte. E a barbárie era aplaudida pela plateia.

Além das causas políticas, houve também causas religiosas que levaram à perseguição. Uma explicação sobre esse ponto é que a religião romana era externa. O que significa isso? É que os fiéis das diversas religiões pagãs do Império tinham altares, ídolos, sacerdotes, cânticos processionais e ritos. Era uma prática religiosa pagã na qual se poderia visualizar a fé. Os romanos não se opunham a acrescentar um novo ídolo ao grupo do panteão, desde que a divindade se subordinasse às pretensões de primazia feitas pela religião do Estado. Era um tempo onde as práticas do politeísmo, culto a vários deuses, era comum. Já os cristãos não tinham ídolos e no no culto nada havia para ser visto. Era um estilo de culto espiritual e interno. Quando se punham de pé e oravam de olhos fechados, as orações cristãs não eram dirigidas a nenhum objeto visível. Essa é a diferença entre uma religião visível de uma invisível. Não ter nenhum objeto externo que aponte para a fé. Para as autoridades romanas, acostumadas às manifestações materiais simbólicas de seus deuses, isso significava ateísmo. Essa acusação foi fundamentada no fato de que as pessoas que viviam no Império não entendiam um culto sem imagens. O monoteísmo era uma prática somente dos cristãos e dos judeus. No paganismo, a prática politeísta, além de normal, trazia em seu bojo várias imagens externa que ajudavam os fiéis a vivenciarem a fé.

Há ainda causas sociais que levaram à perseguição como os cristãos serem bem vistos por pobres e escravos e odiados pelos líderes aristocráticos que temiam a influência sobre as classes pobres. A igreja defendia a igualdade entre dos homens e os líderes aristocráticos se serviam do trabalho de muitos para sustentar poucos privilegiados. Então, os crentes estavam prejudicando os negócios da aristocracia que se sustentava pelo trabalho escravo. Não que cristãos não tivessem escravos. A escravidão era prática comum também entre eles. Mas o tratamento dos cristãos para com os escravos cristãos era de gentileza. Ou seja, os escravos convertidos ao cristianismo tinham os mesmos direitos que qualquer outra pessoa dentro da igreja. Shelley afirma que, entre os aristocratas, as regras sociais para com os escravos eram diferente. “A escravidão crescia incessantemente na sociedade romana. Fosse o escravo homem ou mulher, estava sempre à disposição de seu senhor para as tarefas mais baixas. E se falhasse em satisfazer seu dono, poderia ser descartado ou morto, como um animal sem valor” (SHELLEY, 2004, p. 46) 47. O tratamento do escravo na igreja fugia à regra social. A Bíblia, em Filemon, 1:16, traz o relato de como deveria ser o tratamento de um senhor cristão para com seu escravo também cristão. O apóstolo Paulo intercede pelo escravo Onésimo pedindo que Filemon receba-o “já não como servo, mas como irmão amado” (SBB,
2003, p. 1556) 48.

Quanto às causas econômicas da perseguição, é possível citar o prejuízo que a igreja cristã deu ao paganismo. Por que os historiadores e teólogos afirmam que os cristãos deram prejuízo financeiro? Os sacerdotes, fabricantes de ídolos, videntes, pintores, arquitetos e escultores dificilmente se entusiasmaram com uma religião que ameaçasse seus meios de sustento. Como os cristãos não usavam imagens de escultura em seus cultos, a venda desses objetos ficou prejudicada e isso gerou insatisfação pela classe que produzia e vendia tais objetos. Diante de uma religião que crescia em número de adeptos, tais comerciantes amargaram perdas na venda de objetos religiosos. Também no ano 250 o Império passou por doenças e fome. Os cristãos foram culpados por todas essas mazelas, pois foram acusados de gerar revolta nos deuses por abandonarem a adoração aos mesmos. Como consequência, os deuses mandaram o castigo das doenças e da fome sobre todos.

Inegável o sofrimento das pessoas da igreja apostólica e pós-apostólica diante da decisão de amar e servir ao Evangelho. Mas os teólogos, além de explicitar os motivos da perseguição, ainda trazem o resultado que geraram. Não há dúvidas quanto ao sofrimento que os crentes passaram por causa da fé. Mas como principal consequência da perseguição, cita-se o crescimento do número de cristãos. Sofria, mas crescia. E assim o cristianismo escreveu a sua história e marcou o seu tempo no primeiro século da era cristã. Como disse Tertuliano, “o sangue dos cristãos é a semente” (semen est sanguis christianorum).

O Império e a lei
Em nome de que lei os romanos matavam? Qual o fundamento legal para perseguir? Existia uma diferença entre religião lícita e ilícita. O judaísmo era autorizado. Já o cristianismo era considerado ilícito. Até século III não era obrigatório prestar culto ao imperador. Depois dessa data, sim (COMBY, 2009, p. 45) 49. Os cristãos eram julgados pelas leis civis públicas que eram interpretadas à mercê da vontade de cada governador. Cristãos eram responsabilizados até mesmo por uma revolta que estourasse contra eles. Eram culpados por serem considerados desordeiros. Condenar era uma forma que apagar o fogo da opinião pública e divertir a plateia.

Kaufmann afirma que juridicamente confessar publicamente que fazia parte da religião cristã era crime contra o Estado. Esse delito deveria ser discutido frente ao imperador que estava sob a proteção dos deuses e ainda era venerado como uma divindade. Um crime contra do Estado era considerado também um crime contra a autoridade do imperador e um ateísmo prático. Negar a religião imperial era um ateísta e um inimigo do Estado. “Era inimaginável que o cristianismo, de acordo com o direito religioso romano, fosse admitido como religio, corpus ou collegium e, com isso, legalizado” (KAUFMANN, 2012, p. 58) 50.
Kaufmann cita os decretos imperais existentes. Até que se assinasse uma lei, as recusas à aceitação do cristianismo, as perseguições (sejam locais e pequenas ou não) eram atos apenas de palavras. Mas com o documentos passaram a ser oficializadas as regras civis.
Vamos aos decretos. O primeiro foi o do imperador Trajano (98-117 d.C.), no ano 112 d.C., autorizou que o governador Plínio, o Jovem, da província do Ponto e da Bitínia, executasse os cristãos depois de adverti-los, por causa por causa de teimosia e obstinação. O cristão ficaria livre do castigo, teria abolidas as medidas coercitivas, caso apostatasse da fé e isso seria comprovado se realizasse sacrifício e caso se arrependesse não sendo teimoso. Outro decreto foi o do imperador Adriano que enviou um rescrito ao governador Minicius Fundanus, da Ásia, no ano de 125, que trazia castigos aos cristãos. Mas esse documento trazia também punição para as pessoas que fizessem denúncias sem provas contra os cristãos. O documento de Trajano era diferente e não incluía punição para cidadãos que acusassem sem provas.

Sobre os éditos, no total houve quatro assinados pelo imperador Dioclesiano. Em 303, o cristianismo foi proibido por uma lei. Kaufmann afirma que até meados do século III os governadores mandavam executar apenas alguns cristãos. Mas a situação mudou juridicamente durante o governo de Décio e de Valeriano. Com ambos imperadores no poder, as perseguições deixaram de ser locais e aumentaram. Décio determinou por édito que todos os cidadãos do Estado seriam obrigados a oferecer um sacrifício de súplica aos deuses do Estado, que deveria ser feito na frente de pessoas, chamadas de comissários, e documentado. Foi então que surgiu o atestado (ou certificado) libellus. Judeus não eram obrigados a praticar o édito. Então, essa regra teve maiores consequências entre os cristãos que eram forçados a prestar o culto ao imperador em troca do documento. “As consequências jurídicas atingiam quase exclusivamente os cristãos que não fizessem o sacrifício. Os bispos de Roma, Jerusalém e Antioquia foram executados. Os de Alexandria e Cartago fugiram” (KAUFMANN, 2012, p. 59) 51. Houve cristãos que sacrificaram no altar de deuses pagãos e, com isso, ficaram livres da perseguição e da morte, mas sofreram retaliações por parte dos irmãos da fé, sendo considerados traidores. Após a perseguição de 251, Cipriano, bispo de Cartago, disse que os cristãos que sacrificaram em altar pagão não poderiam receber o sacramento (ceia) a menos que admitissem e reconhecessem em público a culpa e que se submetessem à imposição de mãos por parte dos presbíteros.
Décio morreu e foi proclamado imperador P. Licínio Valeriano que publicou, no ano de 257, um édito que exigia que os cristãos participassem do culto estatal. Caso se recusassem, deveriam ser torturados e exilados. Um ano depois, em 258, Valeriano publica um segundo édito porque o primeiro não surgiu muito efeito. A sentença dizia que os clérigos deveriam ser mortos, senadores, altos funcionários perderiam suas propriedades. E se, mesmo assim, não negassem a fé, deveriam ser mortos. O problema não era venerar Deus. Ninguém era proibido de prestar culto a um deus no Império Romano. O problema das mortes e perseguições era por se adorar somente a um Deus. Outra divindade deveria ser venerada. Isso significava adorar o imperador (KAUFMANN, 2012, p. 61) 52. O final dessa perseguição foi vitória para a igreja. Valeriano foi capturado e tornou-se prisioneiro de guerra no Império persa. Seu filho, Galieno, revogou mandou que fossem revogadas as medidas anticristãs. Foram devolvidos prédios para cultos e cemitérios que haviam sido confiscados dos cristãos.

Embora o século IV não faz parte do recorte desse trabalho, é importante dizer que houve uma última grande perseguição nesse tempo, nos anos de 303-311. O imperador Aurélio Dioclesiano estava no poder. Antes do ano de 303, exigiu dos cristãos que faziam parte do exército e da administração que fizessem sacrifício público. Os que se negaram foram demitidos. Em 303 destruiu igrejas, queimou Bíblias e suspendeu direitos jurídicos dos cristãos. A intenção, dizem os historiadores, era destruir a igreja. Ainda em 303 ele publicou três éditos contra os clérigos, obrigando-os a prestar sacrifícios. O culto ao imperador foi a pedra no sapato dos crentes. Eram presos caso desobedecessem. A maioria do clero prestou culto ao imperador. Em 304 houve nova ordem para o sacrifício. Essa foi a última grande perseguição que os cristãos sofreram no Império Romano. Foi com o édito de tolerância do imperador Galério, em 311, e depois com o édito de Milão, em 313, que acabou o sofrimento. Fim da perseguição histórica. Esse documento, expedido por Constantino e Licínio, traz as ordens para que se interrompa a perseguição ao cristianismo em todo Império. O documento dizia: “o culto divino deve ser a nossa primeira e principal preocupação. Pareceu-nos justo que todos, cristãos inclusive, gozem da liberdade de seguir o culto e a religião de sua preferência. (...) Decretamos, portanto, que, não obstante a existência de instruções anteriores relativas aos cristãos, os que optarem pela religião de Cristo estão autorizados a abraçá-la sem estorvo ou empecilho, e que ninguém absolutamente os impeça ou moleste. (...) Observai, outrossim, que também todos os demais terão garantida a livre e irrestrita prática de suas respectivas religiões, pois está de acordo com a estrutura estatal e com a paz vigente que asseguremos a cada cidadão a liberdade de culto, segundo a sua consciência e eleição”. (BETTENSON, 2011, p. 49) 53.

Além da determinação de liberdade de culto aos cristãos e demais pessoas de qualquer outra religião, o documento ainda ordenou que os lugares de culto dos cristãos fossem-lhes devolvido. H. Bettenson afirma que “as igrejas recebidas como donativos e os demais lugares que antigamente pertenciam aos cristãos deviam ser devolvidos. Os proprietários, porém, podiam requerer compensação”. (BETTENSON, 2011, p. 50) 54.

Constantino deu apoio às igrejas cristãs e determinou a restituição dos bens eclesiásticos. Há o registro de outra carta, produzida por Constantino e endereçada a Anulino, pró-cônsul da África, onde o imperador ordena que “sejam restituídas imediatamente às igrejas cristãs as propriedades que estejam sob poder de qualquer pessoa em qualquer cidade ou lugar” (BETTENSON, 2011, p. 50) 55.

Acabada a perseguição, o que se viu foi uma veneração das vítimas como mártires. A própria comunidade fez essa veneração. Entre os católicos romanos e ortodoxos, mas diferentemente dos protestantes, criou-se a ideia de que os mártires, por terem derramado o seu sangue, assim como Jesus o fez, eram capazes de ajudar muitos a se salvar. É então a partir da veneração aos mártires que se desenvolveu o culto aos santos, como bem lembra Kaufmann (KAUFMANN, 2012, p. 63) 56.

Houve muitos que morreram defendendo a fé. Mas outros tantos escreveram seus nomes como apóstatas. Abandonaram a confissão e se renderam ao paganismo dos três primeiros séculos dessa era. Pierre Pierrard afirma que é ilusório querer enumerar os mártires dos três primeiros séculos. Assim como também não dá para saber com precisão quantos foram os apóstatas. “Frequentemente se repete que o sangue dos mártires foi uma semente de cristãos. Incontestavelmente, do ponto de vista etimológico, um mártir é uma testemunha; e seu testemunho – por vezes voluntário – tem um valor apologético (...)” (PIERRARD, 2014, p. 30) 57.

Bibliografia
KAUFMANN, Thomas; KOTTJE, Raymund; MOELLER, Bernd. História Ecumênica da Igreja 1: dos primórdios até a Idade Média. São Paulo: Edições Loyola: Paulus; São Leopoldo, RS: Editora Sinodal, 2012.
LENZENWEGER, Josef; STOCKMEIER, Peter; BAUER, Johannes B.; AMON, Karl; ZINHOBLER, Rudolf. História da Igreja Católica. 2ª edição, São Paulo: Edições Loyola Jesuítas, 2013.
PIERRARD, Pierre. História da Igreja. São Paulo: Paulus, 1982.
COMBY, Jean. Para ler a história da igreja I – das origens aos século XV. 3ª edição, São Paulo: Edições Loyola, 2009.
CAIRNS, Earle E. O cristianismo através dos séculos – uma história da igreja cristã. 3ª edição, São Paulo: Vida Nova, 2008.
PEÑA, Gabriela Alejandra. História da igreja vinte séculos caminhando em comunidade. São Paulo: Editora Ave-Maria, 2014.
SHELLEY, Bruce L. História do cristianismo ao alcance de todos.Tradução Vivian Nunes do Amaral. São Paulo: Shedd Publicações, 2004.
FERREIRA, Franklin. A igreja cristã na história: das origens aos dias atuais. São Paulo: Vida Nova, 2013.
BETTENSON, Henry. Documentos da igreja cristã. São Paulo: Aste, 2011.
A Bíblia da Mulher: Sociedade Bíblica do Brasil. São Paulo: Mundo Cristão, 2003.
HURTADO, Larry H. As origens da adoração cristã. O caráter da devoção no ambiente da igreja primitiva.São Paulo: Vida Nova, 2011.


Sobre a autora Denise Santana
Mestrado em Teologia, pela Escola Superior de Teologia
Pós-graduação em MBA Gestão da Comunicação nas Organizações, pela Universidade Católica
de Brasília
Bacharelado em Comunicação Social, Jornalismo, pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília
Bacharelado em Teologia, pela Faculdade Evangélica de Brasília
Licenciatura plena em História, pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília



Nenhum comentário:

Postar um comentário